Todos nós temos um segredo. Aquela história que não queremos contar a ninguém ou, até mesmo, um sentimento vergonhoso que queremos esconder até de nós mesmos. A menina-mulher que se olhava no espelho do banheiro da casa noturna possuía vários segredos escondidos embaixo do seu tapete de urso polar. Ela se apoiava na bancada de granito negro encarando o reflexo dos seus olhos verdes de ágata refletido no espelho oval. A cuba por onde escorria a água da torneira aberta era de vidro vermelho, contrastando diretamente com as pastilhas vítreas decorativas da parede em azul piscina. O cabelo estava todo preso em um imenso rabo que descia pelas suas costas.
Admirava a si mesma alisando o vestido negro e curto, possuía um decote generoso nas costas e era completado por poucas jóias e uma bota de salto altíssimo que subia até a metade da sua coxa.
Ás vezes a porta do banheiro se abria cedendo passagem a uma turma animada – trouxas – em sua maioria. Enfeitiçados não só pela essência da magia que corria no sangue de sua família, mas também por todo aquele glamour e requinte que preenchia os espaços vazios do novo investimento do seu primo. Nesses instantes era possível ouvir o som da música eletrônica que explodia nas caixas de som espalhadas pelo enorme salão negro com pé direito triplo, no alto, dançarinas cobertas apenas com faixas de um tecido diáfano exibiam uma coreografia perigosa penduradas no imenso lustre de cristal negro cercado por réplicas transparentes em todo o teto, adornado por cetim tensionado que formava pregas exuberantes por toda a extensão do espaço.
Fez o caminho até a pista de dança de forma rápida apesar dos pequenos encontrões oriundos dos freqüentadores mais entusiasmados. Algumas garotas viravam a cabeça a observar a herdeira mais nova dos Hunter afinal, havia se tornado uma figura pública depois de figurar uma campanha de moda. Era para ser apenas mais um dos seus divertimentos porém a coleção foi um sucesso, graças ao novo rosto que a indústria da moda tinha acabado de lançar. Agnes fazia a sua expressão mais “blasé”ao ser reconhecida, encostou-se no bar e pediu uma taça de Prosseco extremamente gelado que sorveu imediatamente antes de se atirar no embalo de um outro rapazote que dançava intensamente na pista quadriculada.
Não era nada demais, apenas um flerte inocente, uma troca de olhares sem grandes expectativas, ao menos para ela é claro, não podia ceder aquele tipo de assédio publicamente. Os ideais da família estavam em jogo no final daquele ano, um escândalo naquela altura do campeonato seria considerado uma catástrofe, mesmo assim deixava que o estranho guiasse os seus passos até que sentiu algo estranho. Era mais que um sexto sentido, uma espécie de sentido aranha que alertava sobre a proximidade de seu primo, ao virar a cabeça e se deparar com o próprio de braços cruzados contra o peito.
Um breve momento de reflexão que a congelou por míseros segundos e depois voltou a dançar. Sabe, ela era uma bruxa. E não uma qualquer que agitava sua varinha conjurando um Ocus Pocus fajuto, a moça de olhos oblíquos conseguia dominar mentes e naquele momento decidiu que era hora de brincar. Por ela, o rapaz continuaria a dançar a noite toda, o jovem de cabelos escuros e tatuagens no braço entro no seu jogo facilmente, sem exibir qualquer sinal de resistência. Como todo Hunter que tinha consciência do peso da sua ascendência, Andrew entendeu o desafio, não sem antes se salvaguardar é claro. Isto significava dois seguranças ex aurores misturados entre a multidão que retirou o dançarino anônimo da pista com protestos abafados do rapaz vítima de um joguete iniciado por uma garota mimada.
Alguém viu? Ou foi apenas o efeito das luzes estroboscopicas que iludiam a mente dos observadores? Um flash seguido de outro, fumaça de odor açucarado e música hipnótica.
O sol já estava alto lá fora, o apartamento com aspecto antigo decorado com colunas jônicas permanecia silencioso. O chão de mármore frio não incomodava a moça que se cobria apenas com um robe de seda prata, seu cabelo com reflexos dourados brilhava com os raios solares que adentravam pelas janelas escancaradas apesar do frio típico do inverno. Flutes encontravam-se espalhadas por cima dos móveis antigos de carvalho, sobre os aparadores dúzias de rosas vermelhas estavam acomodadas sobre vasos de porcelana chinesa e no centro do quarto circular, alguém repousava alegremente protegido pelo dossel de veludo negro que cercava toda a cama.
A moça bebericava uma xícara de café trazida por uma criada devidamente hipnotizada para não se lembrar do convidado misterioso. O seu cabelo agora estava solto, emoldurando o seu sorriso misterioso. Todos possuíam segredos, alguns poderiam render apenas uma boa fofoca durante o café da manhã, outros poderiam destruir um casamento que nem foi consumado ou então, separar para sempre um clã. Qual o seu tipo de segredo?
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