segunda-feira, 22 de março de 2010

Baviera, 31 de dezembro de 2012

Véspera de Ano Novo, 2012.

Isto se tornou parte da rotina para as classes mais baixas,obter um diminuto vislumbre da aristocracia local nas ruas de suas cidades, caminhando para um café da manhã no Sherry’s depois de uma festa épica, ou talvez caminhando com sacolas de compras pela Rue La Paix em Paris, um local para encontros democráticos. Mas aqui no campo é diferente. Aqui o rico não precisa sofrer ao ser espiado por milhares de pares de olhos. Aqui nas colinas cobertas de neve, qualquer que seja o assunto, o motivo, ou qualquer ato de violência retribuído na cidade, nada pode tocá-los. Eles e somente eles, eram convidados a entrar.

Nos últimos dias frios do ano de 2012 , o “beau monde”* deixou as grandes capitais discretamente em grupos reduzidos, de acordo com as orientações dos seus anfitriões. Na véspera do Ano Novo o último grupo chegou a um trem especial no Tuxedo Park , desembarcando na estação exclusiva dentro do clube particular. Eles receberam diversos trens durante toda a tarde: um trazia orquídeas, outro caviar e jogos, outro caixas com Champanhe Ruinart. E agora chegavam: Schermerhorns e Schuylers, Vanderbilts e Joneses, Lengrubers e Pendragons. Eles eram recebidos por carruagens recém pintadas com as cores verde e dourado, decorado com sinos comemorativos da Tiffay & Co.; e levados através da neve recém caída para o salão de baile onde acontecerá o casamento.

Aqueles que possuem residências propositalmente rústicas ali – um daqueles chalés de madeira, cobertos por musgo ou líquen – vieram para arejá-los. As damas que trouxeram suas jóias de família, tiaras de diamantes para o cabelo e luvas de seda. Agora, tão perto do ano novo, com uma abençoada, mas inesperada festa no horizonte o clima parecia melhorar novamente. Uma ou duas das mulheres comentavam com discrição enquanto uma delas borrifava perfume atrás da orelha, que a noiva usaria o mesmo vestido da mãe durante a cerimônia. Um toque de humildade durante os procedimentos. Mas por outro lado, era uma doce tradição e não era desculpa para a falta de modismo entre os convidados.

Assim que estavam arrumadas, eram acompanhadas até o salão de baile recentemente reformado. Elas eram servidas com ponche quente temperado em copos de cristal e comentando como o salão estava transformado.

No centro, o famoso piso de taco decorativo era delimitado por pétalas de rosa branca. O arco da noiva era decorado com crisântemos e lírios do vale dominando o centro da sala. Assim que os convidados começaram a encher o espaço, eles sussurravam sobre os requintados detalhes preparados para atender as pessoas do mais alto calibre que esperava atender, mesmo que a noticia tenha chegado de repente e os convites entregues apenas alguns dias antes e em mãos. Lá estava Miss Astor, por trás do seu véu negro, um disfarce para sua saúde fraca, que a afastou da temporada e deu inicio a muitos rumores de que estava prestes a abdicar do trono de rainha da sociedade bruxa Européia. Ela descansou nos braços de Harry Lehr, aquele solteiro cobiçado tão freqüentemente falado sobre seu charme e sobre a forma como conduzia os bailes de debutantes e divulgando os bons modos.

Ali estava Otto Hunter fazendo sua vez na primeira fileira. A jovem senhora Hunter assoprando beijos e ajeitando seus cachos loiros e sua tiara de rubi. Frank Cuttings, cujo único filho, Edward “Teddy” Cuttings, era conhecido por ser o melhor amigo do primogênito dos Hunter , embora desde a segunda metade de dezembro tenham sido vistos juntos apenas algumas raras vezes. Cornelius Neily Vanderbilt III e sua esposa, nascida Grace Wilson uma debutante conhecida por ser muito “rápida” e quase fez com que seu marido fosse deserdado. Ela possuía uma aparência régia agora, com seu laço de tecido e os cabelos castanhos aloirados em um coque alto com elaborados cachos, tão Vanderbilt quanto qualquer um deles. Mas após todos os bem nascidos tomarem os seus lugares, foram notadas importantes ausências. Entre aqueles quase cem convidados – uma lista distante, mas seletiva do que as quatrocentas pessoas que caberiam confortavelmente no salão do Ms Astor – havia uma importante família que não estava representada.

Aquela omissão era muito estranha e encobertos pela música suave que anunciava a eminência do inicio da cerimônia, um ou dois convidados murmuravam sobre a ausência. Nesse meio tempo o vento assobiava ao redor do clube. Os cristais de gelo pendurados nos beirais dos telhados brilhavam. Os últimos convidados chegavam apressados para tomar seus lugares, então um grupo de padrinhos vestidos com fraques negros se levantaram – sendo substituídos rapidamente por outros rapazes com casacas bordadas com o nome do resort .
Logo duas fileiras formada por quatro rapazes cada,todos vestiam fraque com um cravo branco na lapela. Wagner e Fritz Hunter faziam parte da procissão cerimonial e eram os primeiros a puxar a fila. Fritz era o mais nervoso, não conseguia esconder sua expressão de contrariedade ao lançar um olhar furioso para trás na direção dos dois últimos rapazes: Andrew e Luicas. O filho do meio da família Hunter apertou a cigarrilha entre os dedos e depois jogou a bituca para o alto e pisou com força encarando o irmão mais velho: -Tem certeza que não há um jeito mais fácil de resolvermos isso? Precisava desse circo todo?

Wagner alisou para trás os cabelos dourados e sorriu com escárnio diante da indignação do outro. - Não havia outro jeito, assim todo mundo sai ganhando a um preço muito baixo. Amanhã ou depois outra socialite resolve fazer uma festa maior e todo mundo vai esquecer o ocorrido. Simples assim. - Finalizou estalando os dedos no momento em que a música suave terminou e trombetas douradas deram início a cerimônia. Uma bruxa atarefada fiscalizou os jovens com o seu olhar acostumado a pescar os mínimos detalhes fora do lugar.Trombetas deram início a cerimônia, a grande porta de madeira com frisos de ouro de abriu e os cavalheiros adentraram ao grande salão do clube particular, na primeira fila de assentos próxima ao altar especialmente montado para a ocasião - na verdade uma mesa de jacarandá estilo Luís XV coberta por uma toalha branca rendada com pontos delicados, Helga Hunter acompanhada do marido, ajeitava os cachos loiros ornados com uma tiara de rubi enquanto era fuzilada pelos olhos da cunhada
devidamente acomodada na outra fileira de cadeira Tiffany&Co. em tom madeira. Helga Hunter née Helga Shemelyer parecia satisfeita com todos os preparativos e nada no mundo, nem a fúria do orgulho ferido de sua agora rival eram capazes de ofuscar o momento de redenção da sua família.

Os rapazes desfilaram pelo corredor delimitado por colunas de vidro de mais ou menos noventa centímetros de altura, em cada uma delas, dezenas de pixies coloridas evoluíam com suas asas multicoloridas. As portas foram fechadas novamente e o ar tornou-se tangível diante de tamanha expectativa até que o barulho da pesada madeira se abrindo seguida por clarins com bandeirolas bordadas com a letra H em verde esmeralda anunciaram a entrada da noiva.

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